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        Herbert Hette

COM O MUNDO NAS MÃOS


    Comandante Kolins Kruvt atravessou o tombadilho com o cachimbo pendendo nos lábios. Desceu, caminhou pelo convés inferior, se debruçou no aço escuro da amurada. O sol se pôs a meia hora deixando no horizonte seu rastro vermelho que ainda tinge as nuvens do centro e cobre de rosa todo o céu ao sul. As águas, calmas e escurecidas atiram espumas contra o casco. O velho barco navega sóbrio, lento. Algumas gaivotas ainda arriscam a última pescaria do dia.

Com. Kruvt - que os marujos angolanos chamam de ‘Mister Cruvéti’ - está particularmente pensativo nesse fim de tarde. Falou pouco o dia todo, não almoçou junto aos outros como é seu costume, e agora, à noitinha, tem o olhar fixo no horizonte e um semblante acinzentado.
— Qual é o seu problema, velho? – Verger o imediato, interrompe seus pensamentos.
Kruvt respirou fundo antes de responder. — Velho? – sorriu — Tenho três anos a mais que você, rapaz. E daqui, você não parece exatamente um jovem...

— Mas o quê que há? é mau humor? Parece cansado...
— Ok, faremos uma última entrega e vamos descansar uns dias na Jamaica, certo? Mulheres, drinques, mulheres, sol, mulheres, terra firme, mulheres... o que você acha? heim??
— É, pode ser...
— Ora vamos! Anime-se marujo!!
— OK! Jamaica!! – ergueu os braços ao norte, na direção do Caribe. Riram. Verger retirou-se à cabine, porém notou que a face do comandante continuou selada e que concordou muito rápido com sua ideia da Jamaica. Para alguém que dizia 'não vou' tão sério, o comandante se entregou muito cedo, talvez quisesse continuar a sós. Verger, parou por um segundo, olhou o velho amigo debruçado sobre o mar calmo. O vento mansinho arrastava para longe o olor do cachimbo, o céu vermelho ao fundo. Não sabia de outro comandante melhor, mais experiente, mais corajoso e que conhecia as águas do planeta como a banheira de sua própria casa. Verger em silêncio, sem ser notado fez uma reverência batendo dois dedos à testa, se retirou.

    
    O dia amanheceu com cinco pancadas na escotilha. Verger deu um salto, saiu nu da maca, abriu. Kruvt parou de lado entre a porta e o corredor, meio corpo dentro, meio corpo fora. Vista-se, ordenou secamente.
— Como assim? Algo errado? – espiou pelas escotilhas enquanto apanhava as calças no armário.
Avistou terra a estibordo. — O quê? onde estamos?   
— Mudei de ideia. – disse frio, como quem ainda não revelou o pior. — Vou passar uns dias aqui, você assume o barco.
— Como assim? que lugar é esse?
Devíamos estar em mar alto no mínimo pelos próximos seis dias!
— Granada...
— O quê?!! devíamos estar do outro lado Kruvt!! o que deu em você? Temos 26 milhões de dólares em mercadoria no porão e mais 16 milhões nesses contêineres! Não podemos nem andar pelo convés direito! O que está acontecendo?...
— Acalme-se, Verger. Não vamos nos atrasar dessa vez...
Verger olhou em volta, reconheceu as montanhas, as praias, o porto. — Granada! O que viemos fazer aqui, Kruvt?
— Não tenho tempo para explicar...
— Vamos perder mais esse contrato...
— A entrega será feita normalmente na data prevista. Não haverá atrasos desta vez.
— Claro que não, porque se isso acontecer podemos perder o navio para as seguradoras... você se esqueceu? – afivelou as calças, saiu atrás do comandante calçando as alpercatas, abotoando a camisa. — Para onde você vai?
— Desembarcar...
— Ei, espere um pouco, – Verger o segurou pelo braço. — Explique essa coisa direito... por que está descendo aqui. Espere pelo menos ancorarmos. As águas desses portos não são bentas...
— Sim. Eu sei, mas quero evitar a aduaneira... sem tempo.
— O quê? Vai descer ilegal? Kruvt, me diz o que está acontecendo!? Você nunca agiu assim... sou seu parceiro por mais de trinta anos, acho que mereço respeito!
Kruvt deteve-se na escada de desembarque a estibordo.
Estão a uma milha e meia da costa. Embaixo uma lancha aguarda batendo no costado do barco no sacudir das ondas.
— É meio embaraçoso... – disse Kruvt. Verger aproximou-se para ouvi-lo melhor. — É um assunto extremamente pessoal... espero que entenda.
— Não, Kruvt, eu não entendo! – vociferou o imediato. — Qual é o problema?
— Verger, – pausou Kruvt, a face erquida para o céu como se procurasse as palavras na brisa. — estou cansado. Tenho 58 anos e passei 44 num convés. Isso é mais que uma vida...
— O que está dizendo, Kruvt? – como um raio lhe cortando a cabeça Verger por fim entendeu o que se passava ali. Inacreditavelmente seu ‘capitão’, seu ‘herói comandante’, seu amigo, dizia adeus. O coração disparou. Gotas de suor brotaram entre os fios de cabelo, escorreram na testa. Por pouco perdeu a voz. — É... vamos falar disso no comando... aaqui fora não. – balbuciou. Na lancha embaixo uns marujos desciam bolsas e sacolas.
— Verger, entenda. Eu não vou mudar de ideia. Por isso eu não lhe disse nada. É uma decisão pessoal. Pensei muito nesse assunto. Estou cansado de tudo. – Kruvt respirou fundo novamente. — Não é como se eu estivesse te abandonando. Você será sempre bem vindo e poderá ficar o tempo que quiser.
— O quê?! – Verger não pôde acreditar nas últimas palavras. — Kruvt dê uma boa olhada em volta! Granada é o fim do mundo! é pior que Terceiro Mundo. Não tem 100 mil pessoas nesta ilha toda. A maioria dessa gente há poucos anos devorava uns aos outros na África! Você não vai ser feliz aqui!
— Como sabe?
— Ora Kruvt, eu te conheço como a um irmão. Quantos anos estamos juntos? heim? Eu cuido de você, você cuida de mim... hã? Qual o problema? é dinheiro? eu poss...
— Não preciso de dinheiro. Tenho mais que o suficiente...
— Então é um homem rico? pois tenho uma notícia ruim para te dar, Kruvt. Você não é rico! Um punhado de dólares nas Canárias não faz de você um homem rico. E se fosse? onde iria gastar neste lixo de lugar? Aqui é o fim do mundo!

A conversa passou do volume normal aos berros de Verger. A tripulação de onze homens abandonou as olhadelas discretas para entreolharem-se surpresos pela tensão da gritaria. Jamais tinham presenciado algo assim entre os dois.

Com. Kruvt voltou as costas, mirou o horizonte, exalou uma frase quase inaudível encoberta pelo arfar das ondas. — Parece que você sabe muitas coisas a meu respeito, não é?
— Olha amigo, eu... eu não quero brigar com você. Me desculpa. Mas é que eu acho tudo isso uma loucura. Trabalhamos mais de 30 anos para pagar esse barco e agora, no final de tudo, você larga assim sem mais nem menos? o que está acontecendo, meu Deus?

— Foram 36 anos, Verger! 36 anos eu e você trabalhando juntos...
— Então o que mudou? ainda somos os mesmos jovens loucos de São Petersburgo! Lembra-se?
— Aquilo? ainda estou tentando esquecer... – murmurou.
— E Veneza? Éramos os reis de todos aqueles bordeis! Quer esquecer isso também? Passamos bons e maus momentos juntos, kruvt. Hoje somos irmãos! Crescemos juntos, conquistamos tudo isso juntos. Somos Irmãos!!

O olhar de Kruvt está perdido, frio. O semblante tem a cor do aço. As rugas profundas marcam todos aqueles anos e cada dia de trabalho duro. Ele tem o olhar duro. A lancha ainda aguarda.
— Preciso ir. Você pode levar o barco e cumprir o contrato...
— Eu não posso conduzir esse gigante e nem tenho documentação para isso... – disse apoiando as costas na amurada. Cruzou os braços, respirou. — Mas posso contratar alguém, é claro. – Fez uma pausa, olhou o rosto do amigo. Sentiu uma segunda pontada no coração. A coisa era muito mais grave que parecia. — O que mudou Kruvt? Sempre confiamos um no outro. O que aconteceu? me conta!!
— O que aconteceu? O que mudou? Talvez você queira mesmo saber. – Verger estremeceu. Aquele tom de voz soou como um epitáfio. Mas ainda não podia crer. Seja o que for, é tão grave que parecia encerrar um companheirismo e uma sociedade de quatro décadas.

Kruvt olhou a lancha embaixo da escada, sinceramente achava essa conversa inútil, e desgastante. — Acho que tudo começou nesta carta... – o comandante por fim se decidiu. Tirou do bolso um envelope amassado. Suas mãos ainda vacilaram inseguras, se era mesmo o melhor a fazer. Verger empalideceu ao reconhecer o papel da carta. Seu coração quase saiu pela boca, depois disfarçou.
— É isso?! Esta é a causa do estardalhaço? Vamos Kruvt! Ela era uma prostituta! e isto é uma chantagem!!
— Chantagem Verger?
— Como uma prostituta pode saber quem é o pai de seu filho? Kruvt tenha juízo pelo amor de Deus!!
— Quantas dessas cartas você recebeu?
— Não sei...
— Quantos telefonemas?...
— Não sei.
— Quantas vezes ela quis subir a bordo? em quantos portos ela nos esperou? Por quanto tempo você esconde isso de mim?
— Não sei, não sei, não sei!!
— Você é meu ‘irmão’ Verger, ‘sabe tudo’ sobre mim...
— Eu fiz isso para te proteger. Você é sentimental, confia fácil nas pessoas. É lógico que ia cair nessa. Eu tinha que te proteger!
— Eu nunca lhe permitir se intrometer na minha vida... isso é pessoal! Você não tinha o direito. Eu poderia ter pelo menos averiguado. Ir vê-la, ouvi-la. Mas você tirou isso de mim...
— Para o seu próprio bem! Seu ingrato!! Você deveria me agradecer por te livrar de uma puta negra com uma criança no colo! Olhe para você, Kruvt! Branco, olhos azuis! Um polaco cheio de dólares, dono de um navio quase do tamanho dessa maldita ilha e um velho solitário! Ponha isso na cabeça marujo! Você é um alvo! se dê conta disso e me deixe em paz!!
— Esse é o problema Verger. É tudo o que temos. – Kruvt alargou os braços, abraçou as quatro direções. — O que você vê? Um navio nada mais... é o que temos... Por que você não volta para casa Verger? sabe por quê? Você  não tem casa! Não tem ninguém lá te esperando! Você não tem ninguém que te ama Verger! Ninguém que valha a pena voltar... Só esse maldito oceano... ele tem tudo, tem a nós dois, e tem o barco...

Kruvt pousou os olhos sobre o olhar úmido de Verger. — Mas hoje... para mim basta! Você estava protegendo sua metade do barco. Tudo bem. Ele é todo seu agora! todo ele... faça o que quiser. Complete a viagem, venda-o... eu estou fora! Não quero levar disso aqui nem um mísero parafuso! – colocou o pé no primeiro degrau da escada, a lancha embaixo.
 

Verger torceu o queixo num velho hábito de desdém. — Tudo isso por causa de uma puta... você é um otário Kruvt!
O comandante esboçou um sorriso. — Você não entendeu ainda não é?... Ela não era uma prostituta... e mesmo que fosse não mudaria nada. Quanto à criança, hoje é uma moça. Uma bela moça! formada, inteligente, livre... e eu não pude vê-la crescer e se tornar a pessoa que é. Perdi isso para sempre. Você me tirou isso... mas decidi não perder mais nada. – apoiou o pé no segundo degrau, voltou-se e disse casualmente. — Sorria Verger, você continua dono do barco e dos mares... você tem o mundo nas mãos, não é? – desceu a escada, tomou a lancha.

   O rastro das hélices rasgou a crista das ondas até o quebra-mar. Depois contornou as pedras, dirigiu-se à praia. O navio fez uma
grande curva. 180º. Sua mancha negra cingiu o horizonte de Granada que brilhava intenso naquela manhã. Se posicionou a oeste, rumo ao coração do oceano.
Verger volta os olhos para as areias quentes da praia. Pôde ver a lancha invadir as areias. Kruvt salta, joga para fora as sacolas e bolsas.


Duas silhuetas femininas correm em sua direção, lhe abraçam, rodopiam na areia. O dia está lindo, o céu, o mar. A manhã cintilante de Granada coroa aquele reencontro. Verger torce o queixo, dá as costas, ordena que os motores avancem mar adentro. Deixa para trás Granada, suas praias idílicas e suas montanhas com o perfume de eterna aurora...

 











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