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        Herbert Hette

 

ONDE ESTOU?

     

    Olho para os lados, não reconheço nada.  
  Embaixo, o chão, não vejo nada.
Não existe nada.
Lanço meus olhos por cima de torres de ladrilhos
e cimento que não estão mais lá.
Quero ver as montanhas que escondiam atrás de si
pequenas cidades, umas juntas as outras
como cúmplices numa trama secreta.
 
 
  Paredes nuas, adobes à vista, ruas de terra...
Nada. Nem montanhas, nem torres, nem cidades, nem ruas.
— Onde estão? onde estarei? que lugar é esse?
Olho de novo. Nada.

Talvez o leste.
 
 
  — Que delícia de ideia! Ah, o velho Sol, sempre lá,
muito antes de tudo, sempre lá.
Mas aonde fica o leste? de que lado é o leste.
Onde a luz do sol amanhecerá e expulsará a noite?
 
 
O leste tem o cheiro de águas abissais.
Ondas cantam, espumas.
Quase posso senti-las no vento...
Que vento? que cheiro? que oceano?
Não há nada, em direção alguma.

Mas o que há de errado comigo?
O que há de errado?
Meu corpo é leve. Acho que posso voar!
isso é um sonho? para aonde vou? Parece que ando.
 
Meus pés não param. Minha alma gira.
É como... a morte.

Meu Deus, estarei morto, frio? na escuridão?
Talvez isso explique tudo...
O leste que não mais existe, o Sol que esfriou-se,
as águas que não posso mais sentir.

É isso então?

Terei morrido de morte tão inesperada
que nem a vi sorrateira em cada cigarro,
em cada curva a 160, em cada amor perdido?

E o que virá agora? para aonde irei?
haverá no meu velório, ao redor do meu caixão,
algum padre e seus terços? a lançar gotas bentas?
Haverá lágrimas de carpideiras no paletó em meu peito?
Não quero que apareça nenhum ateu pra dizer
‘Só ele é que não sabe que tá morto!’.
Não, não deixem entrar nenhum ateu, por favor!
Ateu não. Uma ateia boazuda talvez... mas ateu não!

Também não quero choro, por favor,
nada de histerias, gente se jogando no caixão.
Por favor, isso é um horror.
Me livrem daquela também ‘Passou dessa pra melhor’.
Não digam isso, eu reitero encarecidamente.
Já que estou morto deixe-me pelo menos partir com dignidade.
Nada de baixarias, já basta a morte ter me arrebatado à traição,
sem aviso nenhum, pelas costas,
sem sequer me dar chance de defesa.

Chance de defesa...

Eu quero ter outra chance. Preciso de outra chance.
Mas não quero ser um fantasma a assombrar casas velhas
com correntes e uivos idiotas.      

Não. Eu quero minha vida de volta.
Eu preciso de minha vida de volta...
e quando olhar para leste quero ver o Sol e as Águas.
Quero sentir o cheiro de todas as coisas
e quero por perto todas as pessoas que amei...
 
O que posso dizer? o que posso dizer neste momento?
Que me arrependo das tantas bobagens que fiz? de todas elas?
ou que não arrependo de nada? nada que tenha feito.
Talvez a primeira reação de todo morto seja esta.
Olhar para os lados, não ver nada
e pensar nas coisas ruins que fez pela vida inteira
até que a luz
ou as sombras o leve
para algum lugar definitivo...
 

Um lugar definitivo.
É tudo que a morte é, um lugar definitivo.
 
Mas acho que vou acordar, é só um pesadelo.
É isso. É lógico, vou acordar, sair desse estupor,
abrir os olhos e respirar o ar fresco da manhã!
É isso que vou fazer! o ar fresco da manhã.
 
Mas... que manhã?















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