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        Herbert Hette


 

 





A CORTINA AZUL

    Comprei seis metros de pano. Seis de largura por três e quarenta de altura. Não esqueci do buquê de rosas amarelas e é claro um bom vinho branco. Duas coisas que ela adora, e mais a cortina. Eu ia me dar bem esta noite. Me arrumei, penteei, uma loçãozinha básica, capricho o nó da gravata. Beleza! impecável.

Meu carro me deixou na portaria do apartamento como se lembrasse do caminho. São 8:30 em ponto. Perfeito. Noite maravilhosa, lua clara, céu de estrelas, uma brisa sutil. Perfeito.

Pacotes debaixo do braço, flores. Não há como embrulhar flores de forma a escondê-las totalmente. Pensei nisso. A cortina e o vinho bem empacotado não dão na pinta, mas as flores... O mundo todo olha aquelas rosas e sabe que você quer transar.
Do carro à portaria são menos de cinquenta metros. Encontro duas senhoras, elas sorriem encantadoramente. Dois caras cruzam o caminho, riem discretos. Uma trinca de meninas nas escadas faz piadinhas. O porteiro corre para me atender. Puxa a porta de vidro, aperta o comunicador. Sorriu com ar cúmplice. ‘Oh!... manda subir.’ É a voz dela no aparelho. Um calafrio arrepiou minha espinha. Apenas o som da sua voz poderia causar esse friozinho? O elevador abriu suas portas. Seria o tom da voz ou... uma breve monossílaba naquela pequena frase dita por aquela voz?

O elevador me abandonou no andar a cinco metros de sua porta; já não tenho certeza que está tudo perfeito. Aquele ‘Oh!’ me abalou. Havia mais significado ali que em horas de conversa...

    A porta se abre, solene. É ela. Linda, maravilha. Um sorriso de incendiar. E aquele corpinho que é uma escultura de Marte, deus dos fazedores de Guerra e Amor. Um tubinho vermelho tão justo que eu juraria que a costureira estava por ali para qualquer emergência.
Mas está linda, cheirosa. Tudo nela é lindo. O apartamento cheio de flores, tapetes, belos móveis, cortinas, quadros... uai? cortina? ali? nas portas da varanda? não deveria existir cortina alguma, muito menos azul...
            — Que cortina é essa?
            — Ah!... tem uma surpresa, – diz ela sorrindo. — o Júlio está aqui e vai jantar com a gente!
            — O quê?!!

Foi tudo que pude dizer ainda com meus pacotes debaixo do braço. Júlio chegou da cozinha, sorriso largo, duas travessas com cozidos nas mãos, avental marrado na cintura. Abriu os braços. — Meu grande amigo! que bom que você veio nos visitar! – e me abraçou com as travessas e tudo.

            — ‘Nos visitar’?
            — É, tá tudo bem. – correu ela — Júlio veio me fazer uma surpresa. Chegou às oito. Não sabia que tínhamos marcado esse jantar... ele se ofereceu para ajudar na cozinha...
            — O que você quer dizer com ‘chegou às oito’?
            — Eu estou brincado com você rapaz! – Júlio se diverte. — É lógico que não sabia desse encontro, mas já que estou aqui decidi fazer o jantar antes de ir embora, ok? Acalme-se...
            — Mas, mas...
            — Mas nada. – disse ela cochichando no meu ombro. — Não foi o que planejamos, mas vamos curtir o momento, certo? Que rosas maravilhosas!! Pra mim?
           — Mas, mas... e a cortina??
           — Que cortina? ah, a cortina! é um presente do Júlio.
           — O quê?! qq... que dizer 'Por quê'? – entreguei meu pacote. Flores, vinho. Fiquei ali, braços arreados, a cara de panaca.
           — Oh! que pano lindo! onde conseguiu?
           — Achei que você gastaria de uma cortina 'amarela' na varanda...
           — Amarela? rah! – debochou Júlio. — Ela odeia coisas amarelas...
           — Não liga pra ele! – disse num tom de consolo. — Ele tá brincando... adorei! posso até variar de vez em quando. – me pegou pelo braço, fomos ao sofá.

    Odeio qualquer triângulo. Até na geometria eu os odeio. Foram namorados antes de sermos amigos. Alias, eu a conheci nas cadeiras do Mineirão de um Villa Nova
X Cruzeiro. Já estavam separados, mas nem tanto. Júlio me apresentou a ela e até hoje me pergunto se o fato de a termos encontrado justamente ali naquele dia foi coincidência mesmo ou Júlio deliberadamente arredou-se para aquele lado do estádio porque sabia que ela estaria lá nas cadeiras da torcida do Cruzeiro. O fato é que meu Vilinha meteu 2 X 1 no Cruzeiro, dentro do Mineirão. Placar tão raro que eu, como único torcedor do Villa naquelas cadeiras, acabei virando sensação. Vitória tão rara que ninguém se importou de perder aquele jogo no princípio do campeonato. Todos faziam piada de mim e do meu time. Morri de ri. Fizeram festa como se o Cruzeiro tivesse vencido e acabei jantando na casa dos pais dela e depois fomos para este mesmo apartamento, entendeu?... Eu amo esse Villa Nova!
Mas hoje a história é diferente... Júlio a conhece melhor do que eu. Sabe seus gostos, moraram juntos e se ele não fosse, como elas dizem 'galinha',  talvez estivessem até casados hoje.

O desconfiômetro começou a bipar.

    Sentamos no sofá. Amenidades. Risinhos amarelos. Ela fala mais, respondo em grunhidos. Na cozinha as panelas sofrem nas mãos do Júlio que por gosto ou imperícia, bate nas pias, no fogão e não poucas vezes no piso. Acho que não quer ser esquecido. Porém, enquanto ouço a voz dela sem prestar muita atenção, imagino como sair de fininho sem causar constrangimentos ou bancar o covarde fugindo de uma boa luta. Porque a questão me parece óbvia: lutar ou correr. Tento me valer de Sun Tzu e Maquiavel. Afinal seria o Amor político e igual à Guerra?
Contudo se resolvo ficar e ir até o fim estarei sem dúvida atrapalhando o que talvez seria a única chance daqueles dois, e ainda faço um papel ridículo. Se vou embora, perco uma deusa negligenciada várias vezes por esse idiota, e acabo fazendo outro papel ridículo.

Bem, ridículo por ridículo...

Quando me dou conta, ela está empolgadíssima com um assunto que passei os últimos instantes respondendo, sim, é, ram-ram, ok, tá. Não tenho a menor ideia do que ela falava.

            — ... ora, será que pensam que somos otários? 13%? você pagaria 13%?

Do que ela está falando? juros de cartão? aluguel? condomínio? digo um ‘é’ balançando o queixo. Júlio vem da cozinha como um panzer. — Mês passado não paguei e ainda ameacei entrar na justiça. Aqui pra eles oh!
            — Não, ainda tem mais. Sabe o que o guardinha me disse no balcão? – neste instante ela levanta sai falando irada, o Júlio acrescentado coisas irritado, eles passam pela porta da cozinha xingando sabe-se lá o quê! Eu fico só, com meus botões, no sofá de pano azul.

      Juro que passou pela minha cabeça tocar fogo naquela cortina. Mas o cheiro vindo da cozinha era bom. Pensei, tudo bem, janto e vou embora assim sem amor, sem glamour, sem poesia...
Afrouxo o nó da gravata. Libero um furo no cinto. É isso rapaz, relaxa. Deixa a vida correr. No entanto fez-se um silêncio perturbador na cozinha. As vozes em brados sumiram, apenas o bip do micro-ondas. Uai? aí tem coisa.
Meu desconfiômetro disparou de vez. Imaginei a cena todinha na cabeça: eles agarrados se beijando encima da mesa, o avental cheio de massa de tomate combinando com o tubinho vermelho quase saindo pelas orelhas. Um grande e estupendo beijo apaixonado. Levantei-me pé ante pé, ridículo! como um espião barato estiquei o pescoço pela porta da cozinha. Imagine?

estavam se beijando

Peguei o elevador. Levei embora meus pacotes e minha cortina amarela.
 

 

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