VOCÊ ME AMA?
revisão Brenda & Lucius
editoração Hemiliano Costado
direção Sandra L
projeto gráfico hh
poema incluso 'Amor Veneno' de hh



* Crônica 

VOCÊ ME AMA?

 

É disso que se trata toda paixão. Entrega total e sem remorsos.
Pelo menos é isso que se espera. Mas aí vêm as más línguas, os pessimistas, os realistas e os concretistas, e por fim, os invejosos, claro!
Então, o que seria apenas uma bela e romântica canção, vira algo bem estranho ao misturar na mesma taça o esquisito e o encantador.

— Você me ama?
— Yes, i do.
— Você precisa de mim?
— ... like the rose needs the water.

E aí vem o sorriso dela, lindo, franco, aberto.
Na época apelidaram essa música de ‘Melô das Carentes’, porque a pobre coitada passa o disco inteiro torturando o gajo apaixonado ‘Você me ama? Você precisa de mim? Você me ama? Precisa mesmo de Mim??’
Por mais que o cara responda ‘Yes i do! Yes i do! Yes i do!’ ela continua na mesma ladainha, ‘Você me ama? Você precisa de mim?’
E vai com aquele sorriso de moça apaixonada e feliz sem se importar com o bloco dos Mal Amados...

Acho que os anos 60 revelaram o eterno jogo dos Ingênuos x Espertalhões. Perpertuados como vencedores e donos das riquezas, os Espertalhões riram mais, gozaram mais e aproveitaram mais do que em qualquer outro momento em toda a história humana. Contudo, só os estúpidos ainda acreditavam que era por desígnio de deuses. E para aqueles que duvidavam, empurravam-lhes goela abaixo as ideologias políticas, as teologias e os exércitos. Só para fazê-los ver que 'contra a força não há resistência'.

Lá, nos 60's, a droga era pintada de ‘Libertadora’, o Rock era rebeldia contra o status quo dos espertalhões; os americanos se achavam donos do mundo e os russos tinham certeza que eles é que eram. Os militares brasileiros achavam que com os navios de guerra e bancos americanos poderiam fazer um grande governo e o povo seria feliz para sempre. Alienígenas na Esquerda apregoavam, de si para si, serem mais espertos, mais inteligentes, mais libertos, mais Humanos, mais competentes e mais glamorosos que ‘azelites’.
Os Kennedys achavam que podiam fazer o que quisessem, e os ingleses tinham certeza. Elvis, the Pelvis, era imortal e o Ei Ei Ei tinha deuses, reis, príncipes, princesas, aiatolás, bidus, vodus e pitbulls...  e os muçulmanos tinham certeza que converteriam o mundo, ou explodiriam tudo.

Mas, o mais importante, nada era igual àquele sorriso da moça apaixonada e carente por seu amado.
Nada abalava aquela vozinha de amor sussurrado, e nada parecia capaz de acabar com o amor daquele mancebo apaixonado. ‘Te amo mais do que consigo dizer’ jurava ele enquanto mandava essa outra com os olhinhos cheios de ternura ‘Prefiro ferir a mim mesmo...’

   

Quem nunca disse ou ficou tentado a dizer essas tolices?
Umas bobagens que a gente fala e depois fica com aquela depressão de quem... ‘acho que fiz papel de bobo’. Nada! no outro dia vinha e falava coisas piores, porque é o Amor, é a Paixão. Por isso vale arriscar tudo. Até a vida.

‘Sem você eu posso até morrer’, quantas vezes e em quantas músicas já ouvimos isso?

Línguas desconfiadas poderão dizer que 'o Amor, às vezes, é um copo meio cheio'... mas as danadas das más línguas retrucarão ‘Não! O amor é sempre um copo cheio... de veneno!’ E ainda dirão mais, que só os tolos se apaixonam e que só os muito burros arrumam amores sem dinheiro.
Ainda tem os cientistas: 'O Amor é só uma sopa química que a natureza cozinha para preservar a espécie.' É aí que o niilista sôfrego entra com suas frases prediletas - e aqui seus sentimentos se somam às impressões e desejos de vingança de todos os mal amados em todos os tempos e em todos os lugares do mundo:

O Amor é cego
O Amor dói
O Amor é sexo
O Amor destrói

E o Amor é ridículo
como um furúnculo

O Amor mata
e desmata

O Amor é sacanagem
O Amor é dinheiro
O Amor é bobagem

O Amor não existe
O Amor é tolice
O Amor é um vício
O Amor é um desperdício

O Amor é um precipício

Ingênuos ou não, num belo dia ela passou por aquela porta. ‘Tantos bares, em tantas cidades em todo o mundo, e ela tinha que entrar logo no meu’. É verdade, o amor também gruda e persegue; Humphrey Bogart que o diga em Casablanca – o filme que estreou em 1942 e nunca mais saiu de cartaz, não acredita?
É um clássico em preto e branco tão sagrado que se tornou intocável. Ninguém até hoje em Hollywood,  ou em qualquer outro lugar, teve a coragem de refilmá-lo e correr o risco de receber a maldição eterna do Oscar – ou seja, ser ridicularizado e depois cair no esquecimento...

      

Casablanca é a mais populosa cidade de Marrocos, com um pé no deserto e outro no mar, onde o americano Rick aparentemente apolítico, meia idade e meio deprê foi se esconder da guerra e de um amor fracassado. Porém numa bela noite, o Amor já conspirando contra ele, faz alguém passar pela porta de seu bar nos confins do mundo. Sim, ela. A razão de sua depressão, de seus dois maços de cigarros por dia, de suas doses horárias de álcool e do seu mau humor eterno, Ingrid Bergman, IIsa no filme. Agora casada com um sujeito procurado pelos nazistas. É aí que ele suspira, ‘Com tantos bares no mundo...’

Só que a garota da nossa música, aquela lá do início com seu sorriso arrebatador, suas botas brancas, minissaia, a voz doce e murmurante, também grudou no seu amado ‘Você me ama? Você precisa de mim?’
E olha que nem precisou de uma guerra para encontrá-lo, já que ele estava ali na sua frente e sempre dizendo 'Yes i do' .

      

O nome dessa doçura em preto e branco é Evelyn D'Haese, (Evelyn Marie Haese) uma gatinha belga que veio, encantou e desapareceu. Backvocal de estúdio, foi convidada para a gravação dessa única canção que acabou virando hit e cult do romantismo ingênuo da época.
Há um pega acalorado na rede sobre o que foi feito da Evelyn. Uns dizem que morreu aos 73 anos em 2009, mas outros fizeram cálculos também baseados em um monte de suposições e chegaram à conclusão que se isso fosse verdade ela teria mais de 40 anos ao gravar esse vídeo. O que evidentemente não bate.

Seja lá qual o destino da Evelyn, essa gata miante, dengosa, meiga e carente, representou bem o papel da moçoila apaixonada dos anos 60 – os anos que, como se diz, nunca acabaram.
A pobrezinha amou de paixão com todo o sentimento e ternura que se amam os tolos, os bêbados, os loucos e os perdidos. Mesmo que as vozes roucas e agudas dos crus e cruéis sigam gritando 'Como  pode alguém se perder assim? Como pode alguém amar assim? Isso não é Amor! É Escravidão! Lá vai mais um escondendo a cara de vergonha! É um Escravo do Amor!!
'

No clip de 'Você Me Ama?' outra polêmica promovida pelos donos das línguas mais ferinas, os crus e cruéis, é sobre o casal que dança agarradinho ao fundo.
Há um simbolismo forte ali. Um casal jovem, risonho e cantante passeia de mãos dadas enquanto ao fundo outro casal mais velho dança, bochecha com bochecha, num amor e carinho sem fim.

É lindo isso, não? O Amor atemporal. Os amantes apaixonados pela eternidade felizes para sempre.
Só que não! É que o mal gosto e a feiura se incorporaram ao vídeo quando o diretor do clip teve a infeliz ideia de mandar o velhinho comer de verdade a flor na lapela da dama com a qual ía dançando agarradinho. 

— O que isso quer dizer? perguntaram as más línguas.

O velho vai a deflorar a dama? mastigando assim tão bestialmente a perseguida flor de sua consorte? Por que essa violência? Estaria com raiva da amada ou seria só tesão mesmo? Ou?... será que a dama gosta mesmo de meninos? Mas será possível?

Pegou tão mal esses trechos do clip que muita gente preferiu cortar as cenas antes de exibi-las. Você encontra na rede diversas versões desse mesmo vídeo onde há cortes grotescos e até com aqueles malditos mosaicos embaçados tapando o que não interessa ou o que julgam impróprio.
Nossa janela acima mostra o clip original – pelo menos enquanto estiver no ar. O velho manda ver na flor, mastiga e engole com ferocidade enquanto o casalzinho de pombinhos jura amor eterno... É irônico, belo e burlesco ao mesmo tempo.

      

Mas, quer saber? que se dane! não importa. O que interessa é o Amor, é aquela sensação maravilhosa de se estar ao lado de quem a gente ama. O que importa é o amor gostoso da transa quando se está com quem se ama. Nada é melhor que isso!
Ouça esse seu velho estudante da matéria: Não existe nada no mundo melhor que isso. Nem na natureza, nem nada inventado pelo homem.

E quer mais? Sabe quando aquela amada passou pela porta daquele bar prá lá de Marrakech? Foi o amor... foi a cola, o grude do Amor. Casablanca, Marrakech, Marrocos...

O grande amor de Evelyn na música é Sharif Dean, cantor e filósofo diplomado. Ele a leva pela mão num passeio enamorado, sem compromissos ou remorsos como dois adolescentes apaixonados caminham de mãos dadas numa tarde de domingo enquanto andam, cantam e sonham. E ao fundo um casal mais velho dança apaixonadamente, como se o Amor se eternizasse para além deles, da juventude à velhice.

Adivinha onde nasceu Sharif Dean?
Casablanca, Yes i do!

É lindo isso. O Amor é lindo, e não importa o que dizem...

 

 

 

 



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