DEONTAY   x   ORTIZ
03/Mar/18,
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A transmissão na madrugada de sábado para domingo, pela Fox, nos obriga a perdoar os arroubos dos narradores que faziam entender que era a maior luta de Box do milênio, e que superava os combates de outrora entre os verdadeiros deuses do ringue. Esses narradores adjetivaram tanto as virtudes dos lutadores e da luta em si que botaram no chinelo, e com folga, Camões, Tolkien e Euclides da Cunha juntos rsrsr

 

Arroubos e excessos à parte, a luta foi mesmo sensacional, e eu mais uma vez fiquei dividido entre o coração e a alma. Acabei torcendo pelo cubano Luis Ortiz. Meu coração rebelde perdeu desta vez para minha alma romântica. E perderia também na luta.

Ortiz, o King Kong, definiria a luta no 7º assalto, mas faltou aquele golpe definitivo. Deontay Wilder aguentou a chuva de ‘faiados’- perdão aqui para o uso de uma expressão exclusiva de minha cidade - mas todos sabem o que é um ‘pombo sem asas’ não é? Pois é, uma chuva de diretos e cruzados que assolou Deontay e quase o derrubou. Mas o cara mostrou que é durão. Suportou o castigo até ser salvo pelo gongo, e ainda saiu tirando onda com sorrisos amarelos e acenando que estava tudo bem, mesmo que cambaleando como um bêbado. Tudo bem, o importante e não perder a pose, nem aqueles milhões de dólares de cachê.

 

Deontay é a opção natural de algo que se aproxima da controvérsia, do não ortodoxo, da irreverência, da rebeldia. Provocador, mascarado literalmente, cheio de si, cheio de técnica duvidosa e, até essa luta, de resistência questionável. Ou seja, teria o velho e mal fadado ‘Queixo de Vidro’?

Todo questionamento sobre se merecia continuar com o cinturão de campeão caiu por terra depois dessa luta. Suportou bem o castigo, manteve o adversário sob certo controle o tempo todo e o derrubou no momento em que cometera um pequeno vacilo.

Disseram que Ortiz caiu quatro vezes. Eu só vi duas, as do knockout, uma seguida à outra depois da contagem e sem ter-se recuperado totalmente. A queda primeira, eu não considerei um knockdown porque o cara simplesmente escorregou, e a segundo ele foi empurrado nas cordas e caiu.

 

Luis Ortiz é a minha opção da Alma.

Ser romântico não é o romântismo apenas nas coisas do amor. É romântico em tudo, até na ideologia de vida ou política. Luiz Ortiz atiçou meu romantismo por ser de Cuba, a Cuba do Velho Comandante que sempre foram uma coisa só desde seu resgate das garras das máfias americanas. Fidel era a esperança de qualquer romântico que acreditasse na liberdade de expressão, na liberdade de escolha e no poder ao povo.

 

Nada disso aconteceu naquela ilha, que da Esperança viajou de carona num meteoro para a Desilusão. Não houve Liberdade de Expressão, não houve Liberdade de Escolha e o Povo nunca teve o Poder. Em Cuba só mais um Comunismo Clássico, como um milenar reinado, passando o poder de pai para filho, de irmão para irmão, ou chapas para compadres...

Mas minha alma romântica torceria pelo velho campeão Ortiz de 38 anos, porque em sua ilha, se quisesse o Box como profissão teria que ir embora, pedir asilo e nunca mais ver a família. Por isso que só aos 38 anos e não aos 20 e poucos, ele chegava para disputar o título de campeão mundial, como os grandes campões no auge de suas carreiras aos 20 e poucos anos: Muhammad Ali, Joe Frazier, Evander Holyfield, Mike Tyson... Rock Luciano, Joe Louis, Max Schmeling...

 

Qualquer pessoa hoje pode assistir a essa e a todas as outras lutas pelas redes. Pode se deliciar e ver em tempo fluído a evolução e atual carência desse fantástico esporte.

Foi uma grande luta.

Um combate que provocou fortes emoções, e embora equidistante dos duelos dos gigantes do passado, chegou mesmo a deixar um gostinho dos velhos tempos, hoje só acessados pela memória de quem viveu aquela época e estava ligado no lance ou, felizmente, pelos vídeos e pelos livros... Faça bom proveito.

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